No caminho da verdade
Dilma instalou ontem a Comissão que investigará violações de direitos humanos entre 1946 e 1988
Com um discurso emocionado e incisivo, a presidente Dilma Rousseff instalou na manhã de ontem a Comissão da Verdade, que responsável por investigar violações aos direitos humanos cometidas entre 1946 e 1988, com ênfase no Regime Militar. Na cerimônia, prestigiada por todos os ex-presidentes vivos do período democrático, Dilma disse que a verdade “não morre porque foi escondida” e ressaltou que a comissão é uma iniciativa de Estado, não de governo. A presidente chegou a se emocionar durante o discurso e foi aplaudida de pé.Com a voz embargada, a presidente afirmou que não existe história sem voz. “É como se disséssemos que, se existem filhos sem pais, se existem pais sem túmulo, se existem túmulos sem corpos, nunca, nunca mesmo, pode existir uma história sem voz. E quem dá voz à história são os homens e as mulheres livres que não têm medo de escrevê-la”, destacou. Antes, precisou interromper o discurso devido à emoção, ao dizer que “As novas gerações merecem a verdade, e, sobretudo, merecem a verdade factual aqueles que perderam amigos e parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia”.
Dilma também fez questão de frisar que a comissão não será revanchista. “Ao instalar a Comissão da Verdade não nos move o revanchismo, o ódio ou o desejo de reescrever a história de uma forma diferente do que aconteceu, mas nos move a necessidade imperiosa de conhecê-la em sua plenitude, sem ocultamentos, sem camuflagens, sem vetos e sem proibições”, afirmou.
Durante a cerimônia, foram empossados os sete membros que, nos próximos três anos, terão a tarefa de investigar as violações cometidas durante a ditadura. O grupo, formado por homens e mulheres escolhidos pela presidente, escreverá um relatório e caberá ao Ministério Público ou o Judiciário decidir se cabe algum tipo de responsabilização civil ou penal.
Transição
O evento foi prestigiado por todos os ex-presidentes vivos do período democrático. Sentaram, lado a lado, Luís Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor e José Sarney. A presidente fez questão de marcar a ausência do ex-presidente Itamar Franco, que morreu no ano passado e de Tancredo Neves, que, segundo ela, “soube costurar, com paciência competência e obstinação, a transição do autoritarismo para a democracia que hoje usufruímos”.
Fernando Henrique se esquivou da polêmica sobre a punição dos crimes que serão investigados. “A Comissão tem que revelar a memória. Isso vai pouco a pouco. O país vai aceitando pouco a pouco, progressivamente, que chegou o momento de olhar, faz tanto tempo, não dá para ficar fatos ainda escondidos, temos que revelar tudo”. (Do Correio Braziliense)
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