Não tinha parede, não tinha nada
Edifício Liberdade pode ter vindo abaixo por causa de reformas clandestinas em dois andares
As causas do desmoronamento que deixou pelo menos quatro mortos, seis feridos, 22 desaparecidos e transformou três edifícios do Centro do Rio em uma montanha de pó podem estar ligadas a duas obras que vinham sendo feitas no prédio de 20 pavimentos da Avenida Treze de Maio, o Edifício Liberdade, o primeiro a vir abaixo na noite de anteontem. O terceiro e o nono andares, ocupados por uma empresa de tecnologia da informação, vinham passando por reformas. Ambas eram clandestinas, já que não tinham sido registradas no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio (Crea-RJ), conforme determina a legislação.Entre os quatro mortos, até o início da noite de ontem tinham sido identificados apenas Celso Renato Cabral Filho, 44 anos, e Cornélio Ribeiro Lopes, 73. Embora nenhuma hipótese tenha sido descartada e, apesar de testemunhas terem sentido cheiro de gás momentos antes do acidente, as características do desabamento praticamente afastam a possibilidade de um vazamento do produto ter provocado a queda das edificações. “Não houve explosão e o prédio começou a ruir de cima para baixo. A maior possibilidade é ter sido um problema estrutural”. Luiz Antonio Cosenza, presidente da Comissão de Análise e Prevenção de Acidentes do Crea-RJ.
Proprietária de uma sala comercial no Edifício Liberdade - que provocou o desmoronamento do Edifício Colombo e do pequeno prédio que ficava entre os dois -, Teresa Andrade contou que todas as paredes do terceiro pavimento foram derrubadas durante a reforma: “Quando o elevador parava e abria a porta naquele andar, era possível ver que não havia mais nenhuma pilastra nem parede”, contou.
Vinte a quatro horas após a tragédia, poucas perguntas sobre as causas do acidente haviam sido esclarecidas. Pressionado pela repercussão negativa do episódio, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), assegurou que todos os questionamentos serão respondidos: “Os três prédios são muito antigos, mas nenhum deles tem histórico de rachaduras ou de reclamações sobre abalos na estrutura. Queremos acelerar o trabalho da perícia para que possamos saber o que aconteceu”.
Mais cedo, a prefeitura informou que a prioridade era a busca por sobreviventes, e que a identificação dos responsáveis ainda estava sendo apurada. Até as 22h de ontem, porém, tanto os órgãos municipais como o Crea-RJ ainda não sabiam informar qual era a empresa contratada para realizar as obras no edifício.
Luto
O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), decretou luto oficial de três dias, mas não visitou o local da tragédia. Apenas ontem à tarde, cerca de 15 horas depois do desabamento, o governador veio a publico para comentar o desabamento pela primeira vez, em entrevista à uma rádio. “Essa tragédia podia ter tido dimensões muito mais graves se tivesse ocorrido horas antes. Sem dúvida, a queda de um prédio de 20 andares, de um prédio de 10 andares e de outro com quatro andares é algo que choca em qualquer lugar do mundo”, afirmou Cabral.
Saiba mais
Ligação sob os escombros
n Soterrado nos destroços dos três prédios que desabaram, o biólogo Flávio Porrozzi, conseguiu ligar na madrugada de ontem para a namorada. Segundo Ricardo Porrozzi, padrinho do biólogo, ele só conseguiu dizer “oi, amor”. A ligação caiu em seguida, mas mantém acesa as esperanças dos familiares de encontrá-lo vivo. “Por tudo que aconteceu até agora, não posso deixar de acreditar”, diz Ricardo.
“Ela não se despediu”
De casa, Vitor Fonseca falava pelo MSN com a mulher, Alessandra Alves Lima, quando a comunicação pela rede de bate-papo caiu. Pouco depois, soube da tragédia no Centro do Rio de Janeiro e correu para o local em busca de notícias da analista de sistemas. Alessandra, segundo ele, estava no 14º andar do maior prédio envolvido no acidente. “Liguei (para o celular) e ninguém atendia, não consegui mais falar, ela não tinha saído, ela não se despediu, não falou nada”, repetia Vitor.
Avisada por um bombeiro
n Filha do porteiro de um dos prédios que desabaram no Centro do Rio, Sandra Maria Ribeiro foi surpreendida ontem pela ligação de um bombeiro que encontrou o celular com uma das vítimas. O aparelho estava no bolso de Cornélio Ribeiro Lopes, 73 anos, um dos mortos no desmoronamento. A atual mulher dele, Margarida Carvalho, também estava no local.
Resgate no prédio vizinho
n Cláudio de Taunay, advogado de 33 anos, preparava-se para deixar o escritório em que trabalha, no 16º andar do Edifício Capital, ao lado do Edifício Liberdade, quando ouviu um forte estrondo. “Era como se tivesse ocorrido uma batida de avião”, contou. Assustado, desceu pelas escadas, mas, ao chegar ao sétimo andar, havia escombros que impediam a passagem. “Pensei que o prédio fosse cair”, disse, acrescentando que voltou à sala em que trabalha e, de lá, subiu para o terraço.
Catadora escapa
A catadora de material recicláveis Vera Lúcia dos Santos Freitas escapou por pouco do desabamento. Ela estava no ponto de recolhimento de produtos descartados em frente ao Edifício Liberdade quando sentiu pedaços de reboco caindo em sua cabeça. “Só tive tempo de correr, tudo ficou escuro. Não tive mais notícias do meu sobrinho”, contou.
Fonte: Diario de Pernambuco
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