domingo, 8 de janeiro de 2012

Destaque

Um plano contra o crack

Programa Atitude, que trata usuários da droga, ganhou reforço com a criação de um fundo estadual

“Minha primeira vez foi com 15 anos. Estava com os amigos da comunidade e resolvi fumar. Depois da maconha, veio o crack. Ficava cego e aloprava. Eu tinha tudo. Até estudava. Mas comecei a brigar em casa. Minha irmã queria que eu parasse com as drogas, mas isso dependia de mim e não dela. Comecei a roubar. Primeiro dinheiro, depois objetos.

 Primeiro em casa, depois no mundo. Até que decidi morar na rua. Éramos um grupo de 15 amigos. Eles até matavam para pagar as drogas. Passei fome, frio e medo. Apanhei e fui ameaçado várias vezes. Até que resolvi mudar…” O depoimento é de  um rapaz que hoje tem 22 anos.

Sua ansiedade durante essa entrevista é reflexo de pouco mais de um mês em abstinência. A caminhada pelo submundo trágico das drogas repete a história de tantos outros usuários. Mas, para ele, o final será diferente. 
 

O jovem é um dos 4.668 usuários que buscaram ajuda no Programa Atitude - Atenção Integral aos Usuários de Drogas e seus Familiares. Um projeto pioneiro do governo do estado para o enfrentamento do crack e outras drogas através de casas de desintoxicação. No dia 26 de dezembro passado, a iniciativa ganhou uma forte aliada: a sanção da lei 14.561, que institui o Plano Estadual de Políticas de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas e cria também um fundo de investimento para os projetos. A regulamentação normativa ainda não ficou pronta. Muito precisará ser feito para se descobrir as melhores formas para se combater e prevenir o vício e o aumento da criminalidade causado por ele. No entanto, o trabalho já começou.
 

“As drogas, em especial o crack, são a nossa maior preocupação. Estamos analisando projetos de outros locais para adaptar. No Rio de Janeiro, por exemplo, o dinheiro apreendido nas operações de repressão ao tráfico são usados em projetos. Queremos ideias como essa para transformar nosso estado”, salientou a secretária de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, Laura Gomes. O Atitude que hoje abre os caminhos para o jovem que abriu essa matéria será um dos beneficiados pela nova lei. “Já temos o centro de atenção integral, de acolhimento e apoio e unidades móveis. Agora poderemos aprimorá-los e oferecer mais opções, além de oferecer um atendimento mais especializado”, disse a secretaria. 

Apesar do esforço do governo, a casa de apoio ainda tem suas limitações. Há auxílio para a desintoxicação com ações educativas e até oficinas laborais, mas o espaço não é apropriado. A casa de primeiro andar possui dois quartos onde os usuários podem descansar em bicamas, um ambiente com televisão e salas onde acontecem as aulas práticas de reciclagem. No entanto, falta lugar para tantos pacientes, material pedagógico de estímulo aos estudos e utensílios para as aulas de música e de culinária, por exemplo.

“Atendemos a mais de 1,5 mil pessoas em um ano e meio. Temos 43 funcionários, mas queremos e precisamos fazer mais pelos nossos meninos”, contou a coordenadora do Centro de Acolhimento e Apoio do Programa Atitude no Recife, a psicóloga Malu Freire. Atualmente, o local tem capacidade para atender 30 usuários por dia e 10 no pernoite.
 

Com os novos investimentos, não somente a unidade da capital deverá melhorar. “Temos Atitude em Caruaru, Bom Jardim, em Floresta, no Recife, Cabo de Santo Agostinho e Jaboatão dos Guararapes, mas queremos pelo menos outros seis em atividade ainda neste ano”, adiantou Laura Gomes. E graças ao trabalho de Malu, de Laura e de tantos outros profissionais empenhados na causa, o discurso do nosso rapaz , assim como ele, também mudou. “Do meu grupo de amigos, só sobraram três. Um virou crente, outro fugiu para São Paulo e eu estou aqui. Em tratamento há oito meses. Há mais de um mês limpo. Achei uma casa que me abriu as portas. Ainda estou sem rumo, mas quero ficar forte, arrumar um emprego, fazer cursos. Sou novo, tenho sonhos. Quero voltar a viver”.

 Atitude Aproximação de Rua - Objetiva a intervenção psicossocial e socioassistencial junto aos usuários de droga. Principalmente, para os que estão em em situação de risco. Atua na modalidade itinerante através do uso de três carros adaptados com equipe de psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e educadores. Tem capacidade para atender 50 pessoas

Atitude Acolhimento Intensivo - Espaço de proteção integral para usuários de drogas com vínculos familiares e comunitários rompidos. O tempo de estadia varia de um a seis meses de acordo com o perfil do usuário. Tem capacidade para 30 pessoas
Atitude Acolhimento e Apoio - Casa de passagem com funcionamento 24h. É um espaço para usuários de drogas e familiares. Tem capacidade para 30 atendimentos diários e 10 pernoites

Programa Atitude

saiba mais

 
Fonte: Diario de Pernambuco

Nenhum comentário:

Postar um comentário